Ulysses Guimarães desaparecia no mar de Angra dos Reis...
Na belíssima região de Angra dos Reis, no litoral do Estado do Rio de
Janeiro, a Capitania dos Portos previra que a segunda-feira teria "céu
encoberto, com chuvas e trovoadas, e ventos de 15 a 20 nós, com
rajadas". Traduzindo, o tempo seria ruim, mas não péssimo, e os ventos
chegariam no máximo a 40 quilômetros por hora. Nada assustador. Na
segunda-feira, o céu esteve encoberto, houve chuvas, trovoadas, ventos e
rajadas – muitas rajadas com até 100 quilômetros por hora. Lambido por
uma dessas violentas línguas de vento, perdido no coração de uma nuvem
grávida de chuva, o doutor Ulysses da Silveira Guimarães, aos 76 anos,
completados uma semana antes, mergulhou para a morte no mar na tarde do
Dia da Criança e de Nossa Senhora Aparecida.
O Congresso parou,
bandeiras desceram a meio pau e os sinos começaram a dobrar pelo
deputado. Sua trajetória, de mais de quatro décadas e onze mandatos
consecutivos de deputado, serve corno um manual de preservação da vida
democrática. Sua biografia mostra uma das personalidades mais vigorosas
da política brasileira desde o pós-guerra.
O fim de Ulysses
começou às 3h20 da tarde. Nessa hora, o helicóptero levantou vôo do
gramado do Hotel Portogalo, próximo da casa do empresário Luís Eduardo
Guinle, onde Ulysses passou o feriado. Ele sentou-se na cadeira ao lado
do piloto Jorge Comeratto. A bordo estava Mora, sua mulher há 37 anos, e
casal de amigos, o ex-senador e ex-ministro Severo Gomes e sua mulher
Henriqueta. Dez minutos mais tarde, o piloto Comeratto, um profissional
experiente, desceu no aeroporto de Angra, abasteceu com 258 litros de
querosene e partiu com destino a São Paulo. Faltavam então quinze
minutos para as 4 da tarde. "A névoa impedia a visão dos morros a 2
quilômetros daqui, mas no litoral a visibilidade era melhor", conta
Alceo Lopes, arrendatário do aeroporto de Angra. Antes de completar meia
hora de vôo, o helicóptero enfrentou chuva com granizo. "Ele vinha
costeando o litoral, voando baixo, a uns 50 metros do nível da água, com
farol ligado", conta o industrial Arthur Vicintin Neto, que pescava ali
perto, tem experiência como piloto de monomotores e achou o primeiro
corpo depois do acidente, o do piloto Comeratto. "O helicóptero ciscava,
procurando um buraco no meio das nuvens para atravessá-las", conta
Vicintin. Ao entrar nas nuvens, o piloto perdeu a visibilidade,
encontrou ventos de 100 quilômetros por hora e mergulhou no mar
violentamente.
Perto do Mar - A gênese de uma tragédia só se
realiza quando tudo dá errado nos seus mínimos detalhes. Há um mês,
Ulysses parecia estar marcando um encontro com a morte. Começou a
insistir com seu amigo, o ex-ministro Renato Archer, para pedir
emprestada a mansão de Guinle em Angra. Archer não se entusiasmou com a
idéia, mas tanto o deputado insistiu, em quatro telefonemas, que sua
vontade foi feita. Em Angra, resistiu aos apelos para que não voltasse
de helicóptero. Na viagem de ida, na manhã de sexta dia 9, o tempo não
ajudara. O piloto Comeratto levou três horas numa viagem que normalmente
dura uma, seguiu sempre pela orla marítima em baixas altitude e
velocidade, e ao chegar em Angra o combustível estava quase no fim.
Daria só para mais vinte minutos de vôo. Com os problemas da ida, Mora
ficou assustada. "Nunca andei tão perto do mar. Contei todas as praias
de Santos até Angra", disse ela no jantar de sexta-feira. Sua filha,
Celina Campello, que passara o fim de semana com os país, propôs que
voltassem de carro. Ulysses recusou. Recém-operado do apêndice, achou
que não seria confortável ficar horas sentado num automóvel. Por fim,
antecipou a volta em uma hora. No céu, encontraram nuvens enormes, de
até 300 quilômetros de extensão.
Foi um fim de semana de
amenidades. Ao chegar, Ulysses soube que o presidente ltamar Franco lhe
telefonara. Foi até o Hotel Portogalo, já que a residência de Guinle não
tem telefone, e falou vinte minutos com ltamar sobre a indicação de
Lázaro Barbosa para a Agricultura. No sábado, acordou às 9 horas e
dedicou-se à leitura dos jornais. À tarde, com Severo, leu sobre
parlamentarismo na varanda para o mar. Foi interrompido quando o jet-ski
do piloto Ayrton Senna sofreu urna pane ali na frente. Ao reconhecer
Ulysses, Senna convidou-o para uma volta de jet-ski. "Obrigado, meu
filho", recusou o deputado. "Essa história de jet-ski já deu muita
confusão neste país." No domingo, Ulysses e Severo, acompanhados das
mulheres, passearam pela manhã e ao meio-dia foram almoçar na casa do
empresário Israel Mabin, na Ilha Grande.
Uma lancha os apanhou em
casa para levá-los até a Fazenda do Morcego, de Klabin. Almoçaram
churrasco, feijão, arroz e fritas, e apreciaram a recuperação do
casarão, construído em 1629. Escalado para presidir uma conferência
sobre meio ambiente em novembro, em Brasília, Ulysses conversou
longamente sobre o assunto com Klabin, outro interessado em questões
ecológicas. Só voltaram para casa no cair da tarde.
Na
segunda-feira fatal, Ulysses foi o primeiro a acordar. Tomou café
sozinho e leu um livro até que os jornais chegassem. Mais tarde, foi ao
Hotel Portogalo, junto com Archer, para um novo telefonema. Dessa vez,
falou com a casa do empresário paulista Jorge Chammas Neto, do Moinho
São Jorge, que lhe emprestara o helicóptero branco, de prefixo PT-HMK,
para ir a Angra. Pediu-lhe que o piloto chegasse uma hora mais cedo.
Tomada essa providência, ninguém falou mais em voltar por terra, e o
grupo começou a dispersar-se. Celina e o marido, Eduardo Campello,
tomaram o carro para o Rio de Janeiro. Archer e sua mulher, Maria da
Glória, fizeram o mesmo. No almoço, Ulysses tomou duas doses de uísque
antes de sentar-se à mesa e comer um filé de frango. Era a primeira vez
que bebia desde a cirurgia do apêndice, no final de agosto. Depois do
almoço, os dois foram ao Hotel Portogalo aguardar o helicóptero. O
piloto Comeratto atrasou-se quinze minutos e explicou que pegara uma
chuva forte no caminho. "Não me deixe mais preocupada ainda", pediu
Mora. "Está chovendo, mas dá para fazer a viagem", tranqüilizou o
piloto. Do helicóptero, já no ar, Ulysses acenou aos funcionários do
hotel que acompanhavam a decolagem do deck da piscina.
"Sensação Terrível" – Eram 5 da tarde quando Celina ligou para Archer,
preocupada com a falta de notícia do país. Archer ligou para o hotel em
Angra para saber se o helicóptero teria retornado em função do mau
tempo. A resposta foi negativa, como seriam todas as demais. Em contato
com a Líder Táxi Aéreo, pediu que a empresa fizesse um rastreamento para
saber onde o PT-HMK estava. A Líder não o localizou. Archer então
telefonou para o Salvaero, o órgão do Ministério da Aeronáutica
encarregado de operações de salvamento. À noite, ltamar Franco foi
informado do sumiço do helicóptero. Na terça-feira desmoronaram as
esperanças. A Câmara dos Deputados suspendeu a sessão do dia. Os corpos
começaram a ser encontrados. Primeiro, foi localizado o do piloto
Comeratto, próximo à Praia do Sono. Mais tarde, a 2 quilômetros dali,
encontrou-se um corpo de homem. Era o ex-senador Severo Gomes, enterrado
em São Paulo com honras militares. Por fim, ainda mais ao longe, a
cerca de 4 quilômetros, apareceu um corpo de mulher. Com uma aliança
dedo anular esquerdo, com a inscrição "Ulysses 10/12/55", soube-se que
era Mora. Também foi enterrada em São Paulo. Daí em diante, as equipes
de resgate achariam só destroços do helicóptero. Até a madrugada de
sábado, o corpo de Ulysses e o de Henriqueta, mulher de Severo,
continuavam desaparecidos. Podem ter sido levados pela correnteza. Podem
estar presos às engrenagem; do helicóptero ou numa gruta marinha.
Sem localizar as engrenagens, ninguém sabe com precisão o que houve
dentro das nuvens. O pescador Paulo César Cândido, de 43 anos, mestre do
barco Canadá, garante ter visto o helicóptero desaparecer no céu
encoberto e, minutos mais tarde, voltar na direção de Angra, para sumir
de novo nas nuvens. O certo é que, cercado pela nuvem, o piloto ficou
com sua visibilidade reduzida a zero e perdeu a noção de espaço. "Você
fica ilhado dentro da nuvem e não sabe para onde vai. É impossível saber
a que altura se está", afirma o tenente-coronel José Carlos Freire, que
coordena o resgate. É provável que ninguém tenha percebido o que
acontecia, pela falta de visibilidade. "Se percebessem, seria uma
sensação terrível", conta o major Antonio Bermudez, que há quatro anos
caiu de helicóptero, por problemas no motor, numa clareira no interior
de Goiás. "É como se um carro subindo uma ladeira começasse de repente a
ir para trás. Com duas agravantes: a uma velocidade enorme e sem chão",
define ele.
O impacto do helicóptero de Ulysses com o mar foi
brutal. Calcula-se que o choque tenha acontecido a uma velocidade entre
180 e 200 quilômetros por hora. Os corpos encontrados dão uma idéia da
violência: estavam quase irreconhecíveis, com traumatismos múltiplos e
as vísceras rompidas. "Foi morte instantânea", afirma o médico legista
Nilton Luiz da Penha, que examinou os cadáveres. Boa parte das dúvidas
sobre o acidente poderia estar solucionada se o helicóptero tivesse um
radioemissor a bateria, que é acionado automaticamente em caso de
acidente. Esse equipamento emite sinais de rádio em freqüências
reservadas a pedidos de socorro e as mensagens são captadas por um de
quatro satélites - dois americanos e dois russos -, que no prazo máximo
de uma hora e meia informam sua localização exata para dezessete
estações terrestres no planeta. Todos os grandes jatos comerciais voam
com esse equipamento, e foi graças a ele que se localizou o Boeing
737-200 da Varig que caiu na Amazônia com 48 passageiros em setembro de
1989. Se o Esquilo de Ulysses levasse um rádio desses, que custa a soma
irrisória de 500 dólares, a ferragem do aparelho teria sido localizada
no próprio dia do acidente. "Vidas seriam salvas e horas de busca
economizadas se o Departamento de Aviação Civil exigisse o uso do
equipamento", diz Martim Arrudão, ex-comandante da Vasp que trabalha há
anos pela melhoria das condições de segurança de vôo no Brasil.
Homenagem a Ulysses Guimarães
Árdua será a tarefa daquele a quem se incumbir a enumeração das lutas e
conquistas do Dr. Ulysses da Silveira Guimarães. Vária é a coleção de
feitos relacionados em sua biografia. Qualquer classificação, assim,
exigiria uma escolha. Escolha que se torna tanto mais difícil quanto
mais se evidencia, com o tempo, o enorme significado de sua vida para a
história do País.
A verdade é que Ulysses Guimarães, mercê das
qualidades que conformaram sua atuação de homem público, encarnou
pessoalmente a maioria dos ideais que empolgaram a nação brasileira, nos
últimos 30 anos. Serenidade, sem apatia. Prudência, mas despida de
qualquer sombra de fraqueza ou hesitação. Intransigência quanto a
princípios. Honestidade. Sinceridade. Coragem, que, entretanto, jamais
se confundia com temeridade.
Nele, tais virtudes se tornaram o ponto
de referência que impediu o naufrágio, durante a longa e perigosa
travessia do autoritarismo, na campanha empolgante pelas eleições
"diretas já" e nos trabalhos da Assembléia Nacional Constituinte.
A
sua vitória mais importante, entretanto, foi ter estabelecido, para
sempre entre nós, o paradigma da verdadeira cidadania. Essa conquista
como que resume e arremata todo o esforço de sua vida. Foi a inspiração
que iluminou seus passos, o objetivo que norteou suas lutas, o fio comum
que encadeia e dá sentido aos episódios de sua carreira.
Ulysses
Guimarães está vivo. E assim permanecerá para sempre na memória do povo
que amou e da pátria a que se dedicou por inteiro.
(Por Ibsen Pinheiro - Deputado Federal)
Na belíssima região de Angra dos Reis, no litoral do Estado do Rio de Janeiro, a Capitania dos Portos previra que a segunda-feira teria "céu encoberto, com chuvas e trovoadas, e ventos de 15 a 20 nós, com rajadas". Traduzindo, o tempo seria ruim, mas não péssimo, e os ventos chegariam no máximo a 40 quilômetros por hora. Nada assustador. Na segunda-feira, o céu esteve encoberto, houve chuvas, trovoadas, ventos e rajadas – muitas rajadas com até 100 quilômetros por hora. Lambido por uma dessas violentas línguas de vento, perdido no coração de uma nuvem grávida de chuva, o doutor Ulysses da Silveira Guimarães, aos 76 anos, completados uma semana antes, mergulhou para a morte no mar na tarde do Dia da Criança e de Nossa Senhora Aparecida.
O Congresso parou, bandeiras desceram a meio pau e os sinos começaram a dobrar pelo deputado. Sua trajetória, de mais de quatro décadas e onze mandatos consecutivos de deputado, serve corno um manual de preservação da vida democrática. Sua biografia mostra uma das personalidades mais vigorosas da política brasileira desde o pós-guerra.
O fim de Ulysses começou às 3h20 da tarde. Nessa hora, o helicóptero levantou vôo do gramado do Hotel Portogalo, próximo da casa do empresário Luís Eduardo Guinle, onde Ulysses passou o feriado. Ele sentou-se na cadeira ao lado do piloto Jorge Comeratto. A bordo estava Mora, sua mulher há 37 anos, e casal de amigos, o ex-senador e ex-ministro Severo Gomes e sua mulher Henriqueta. Dez minutos mais tarde, o piloto Comeratto, um profissional experiente, desceu no aeroporto de Angra, abasteceu com 258 litros de querosene e partiu com destino a São Paulo. Faltavam então quinze minutos para as 4 da tarde. "A névoa impedia a visão dos morros a 2 quilômetros daqui, mas no litoral a visibilidade era melhor", conta Alceo Lopes, arrendatário do aeroporto de Angra. Antes de completar meia hora de vôo, o helicóptero enfrentou chuva com granizo. "Ele vinha costeando o litoral, voando baixo, a uns 50 metros do nível da água, com farol ligado", conta o industrial Arthur Vicintin Neto, que pescava ali perto, tem experiência como piloto de monomotores e achou o primeiro corpo depois do acidente, o do piloto Comeratto. "O helicóptero ciscava, procurando um buraco no meio das nuvens para atravessá-las", conta Vicintin. Ao entrar nas nuvens, o piloto perdeu a visibilidade, encontrou ventos de 100 quilômetros por hora e mergulhou no mar violentamente.
Perto do Mar - A gênese de uma tragédia só se realiza quando tudo dá errado nos seus mínimos detalhes. Há um mês, Ulysses parecia estar marcando um encontro com a morte. Começou a insistir com seu amigo, o ex-ministro Renato Archer, para pedir emprestada a mansão de Guinle em Angra. Archer não se entusiasmou com a idéia, mas tanto o deputado insistiu, em quatro telefonemas, que sua vontade foi feita. Em Angra, resistiu aos apelos para que não voltasse de helicóptero. Na viagem de ida, na manhã de sexta dia 9, o tempo não ajudara. O piloto Comeratto levou três horas numa viagem que normalmente dura uma, seguiu sempre pela orla marítima em baixas altitude e velocidade, e ao chegar em Angra o combustível estava quase no fim. Daria só para mais vinte minutos de vôo. Com os problemas da ida, Mora ficou assustada. "Nunca andei tão perto do mar. Contei todas as praias de Santos até Angra", disse ela no jantar de sexta-feira. Sua filha, Celina Campello, que passara o fim de semana com os país, propôs que voltassem de carro. Ulysses recusou. Recém-operado do apêndice, achou que não seria confortável ficar horas sentado num automóvel. Por fim, antecipou a volta em uma hora. No céu, encontraram nuvens enormes, de até 300 quilômetros de extensão.
Foi um fim de semana de amenidades. Ao chegar, Ulysses soube que o presidente ltamar Franco lhe telefonara. Foi até o Hotel Portogalo, já que a residência de Guinle não tem telefone, e falou vinte minutos com ltamar sobre a indicação de Lázaro Barbosa para a Agricultura. No sábado, acordou às 9 horas e dedicou-se à leitura dos jornais. À tarde, com Severo, leu sobre parlamentarismo na varanda para o mar. Foi interrompido quando o jet-ski do piloto Ayrton Senna sofreu urna pane ali na frente. Ao reconhecer Ulysses, Senna convidou-o para uma volta de jet-ski. "Obrigado, meu filho", recusou o deputado. "Essa história de jet-ski já deu muita confusão neste país." No domingo, Ulysses e Severo, acompanhados das mulheres, passearam pela manhã e ao meio-dia foram almoçar na casa do empresário Israel Mabin, na Ilha Grande.
Uma lancha os apanhou em casa para levá-los até a Fazenda do Morcego, de Klabin. Almoçaram churrasco, feijão, arroz e fritas, e apreciaram a recuperação do casarão, construído em 1629. Escalado para presidir uma conferência sobre meio ambiente em novembro, em Brasília, Ulysses conversou longamente sobre o assunto com Klabin, outro interessado em questões ecológicas. Só voltaram para casa no cair da tarde.
Na segunda-feira fatal, Ulysses foi o primeiro a acordar. Tomou café sozinho e leu um livro até que os jornais chegassem. Mais tarde, foi ao Hotel Portogalo, junto com Archer, para um novo telefonema. Dessa vez, falou com a casa do empresário paulista Jorge Chammas Neto, do Moinho São Jorge, que lhe emprestara o helicóptero branco, de prefixo PT-HMK, para ir a Angra. Pediu-lhe que o piloto chegasse uma hora mais cedo. Tomada essa providência, ninguém falou mais em voltar por terra, e o grupo começou a dispersar-se. Celina e o marido, Eduardo Campello, tomaram o carro para o Rio de Janeiro. Archer e sua mulher, Maria da Glória, fizeram o mesmo. No almoço, Ulysses tomou duas doses de uísque antes de sentar-se à mesa e comer um filé de frango. Era a primeira vez que bebia desde a cirurgia do apêndice, no final de agosto. Depois do almoço, os dois foram ao Hotel Portogalo aguardar o helicóptero. O piloto Comeratto atrasou-se quinze minutos e explicou que pegara uma chuva forte no caminho. "Não me deixe mais preocupada ainda", pediu Mora. "Está chovendo, mas dá para fazer a viagem", tranqüilizou o piloto. Do helicóptero, já no ar, Ulysses acenou aos funcionários do hotel que acompanhavam a decolagem do deck da piscina.
"Sensação Terrível" – Eram 5 da tarde quando Celina ligou para Archer, preocupada com a falta de notícia do país. Archer ligou para o hotel em Angra para saber se o helicóptero teria retornado em função do mau tempo. A resposta foi negativa, como seriam todas as demais. Em contato com a Líder Táxi Aéreo, pediu que a empresa fizesse um rastreamento para saber onde o PT-HMK estava. A Líder não o localizou. Archer então telefonou para o Salvaero, o órgão do Ministério da Aeronáutica encarregado de operações de salvamento. À noite, ltamar Franco foi informado do sumiço do helicóptero. Na terça-feira desmoronaram as esperanças. A Câmara dos Deputados suspendeu a sessão do dia. Os corpos começaram a ser encontrados. Primeiro, foi localizado o do piloto Comeratto, próximo à Praia do Sono. Mais tarde, a 2 quilômetros dali, encontrou-se um corpo de homem. Era o ex-senador Severo Gomes, enterrado em São Paulo com honras militares. Por fim, ainda mais ao longe, a cerca de 4 quilômetros, apareceu um corpo de mulher. Com uma aliança dedo anular esquerdo, com a inscrição "Ulysses 10/12/55", soube-se que era Mora. Também foi enterrada em São Paulo. Daí em diante, as equipes de resgate achariam só destroços do helicóptero. Até a madrugada de sábado, o corpo de Ulysses e o de Henriqueta, mulher de Severo, continuavam desaparecidos. Podem ter sido levados pela correnteza. Podem estar presos às engrenagem; do helicóptero ou numa gruta marinha.
Sem localizar as engrenagens, ninguém sabe com precisão o que houve dentro das nuvens. O pescador Paulo César Cândido, de 43 anos, mestre do barco Canadá, garante ter visto o helicóptero desaparecer no céu encoberto e, minutos mais tarde, voltar na direção de Angra, para sumir de novo nas nuvens. O certo é que, cercado pela nuvem, o piloto ficou com sua visibilidade reduzida a zero e perdeu a noção de espaço. "Você fica ilhado dentro da nuvem e não sabe para onde vai. É impossível saber a que altura se está", afirma o tenente-coronel José Carlos Freire, que coordena o resgate. É provável que ninguém tenha percebido o que acontecia, pela falta de visibilidade. "Se percebessem, seria uma sensação terrível", conta o major Antonio Bermudez, que há quatro anos caiu de helicóptero, por problemas no motor, numa clareira no interior de Goiás. "É como se um carro subindo uma ladeira começasse de repente a ir para trás. Com duas agravantes: a uma velocidade enorme e sem chão", define ele.
O impacto do helicóptero de Ulysses com o mar foi brutal. Calcula-se que o choque tenha acontecido a uma velocidade entre 180 e 200 quilômetros por hora. Os corpos encontrados dão uma idéia da violência: estavam quase irreconhecíveis, com traumatismos múltiplos e as vísceras rompidas. "Foi morte instantânea", afirma o médico legista Nilton Luiz da Penha, que examinou os cadáveres. Boa parte das dúvidas sobre o acidente poderia estar solucionada se o helicóptero tivesse um radioemissor a bateria, que é acionado automaticamente em caso de acidente. Esse equipamento emite sinais de rádio em freqüências reservadas a pedidos de socorro e as mensagens são captadas por um de quatro satélites - dois americanos e dois russos -, que no prazo máximo de uma hora e meia informam sua localização exata para dezessete estações terrestres no planeta. Todos os grandes jatos comerciais voam com esse equipamento, e foi graças a ele que se localizou o Boeing 737-200 da Varig que caiu na Amazônia com 48 passageiros em setembro de 1989. Se o Esquilo de Ulysses levasse um rádio desses, que custa a soma irrisória de 500 dólares, a ferragem do aparelho teria sido localizada no próprio dia do acidente. "Vidas seriam salvas e horas de busca economizadas se o Departamento de Aviação Civil exigisse o uso do equipamento", diz Martim Arrudão, ex-comandante da Vasp que trabalha há anos pela melhoria das condições de segurança de vôo no Brasil.
Homenagem a Ulysses Guimarães
Árdua será a tarefa daquele a quem se incumbir a enumeração das lutas e conquistas do Dr. Ulysses da Silveira Guimarães. Vária é a coleção de feitos relacionados em sua biografia. Qualquer classificação, assim, exigiria uma escolha. Escolha que se torna tanto mais difícil quanto mais se evidencia, com o tempo, o enorme significado de sua vida para a história do País.
A verdade é que Ulysses Guimarães, mercê das qualidades que conformaram sua atuação de homem público, encarnou pessoalmente a maioria dos ideais que empolgaram a nação brasileira, nos últimos 30 anos. Serenidade, sem apatia. Prudência, mas despida de qualquer sombra de fraqueza ou hesitação. Intransigência quanto a princípios. Honestidade. Sinceridade. Coragem, que, entretanto, jamais se confundia com temeridade.
Nele, tais virtudes se tornaram o ponto de referência que impediu o naufrágio, durante a longa e perigosa travessia do autoritarismo, na campanha empolgante pelas eleições "diretas já" e nos trabalhos da Assembléia Nacional Constituinte.
A sua vitória mais importante, entretanto, foi ter estabelecido, para sempre entre nós, o paradigma da verdadeira cidadania. Essa conquista como que resume e arremata todo o esforço de sua vida. Foi a inspiração que iluminou seus passos, o objetivo que norteou suas lutas, o fio comum que encadeia e dá sentido aos episódios de sua carreira.
Ulysses Guimarães está vivo. E assim permanecerá para sempre na memória do povo que amou e da pátria a que se dedicou por inteiro.
(Por Ibsen Pinheiro - Deputado Federal)








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